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LAMENTO NO ARRAIAR

 

Irani Alves de Genaro

(para declamar em festa junina) 

 

Hoje o arraiar ta enfeitadu

Ta cheio di namoradu

Suspirano pelos canto .

 

Muita fita, muita frô

Infeite de tuda cor

Parece inté São João!

 

E as guloseima!

Quanta fartura!

Devi tá uma gostosura!

O bolo, é pra lá di especiar!

 

O sanfonero, é mais du qui bão,

Toca inté di jueio no chão!

di tantu qui toca bem. . .

 

Mai. . .di jueio, quem tá

sô eu mermo, Santinha!

Pruquê essa festa era minha!

Era ieu que ia casá.

 

Sabe Santinha?

tuda veis que tevi festa,

aqui, nesse arraiar,

eu sempri vinha ajudar,

trabaiava feito loca!

 

Varria, limpava, infeitava.

Fazia inté rapadura!

A minha' arma era pura

nunca pidi nada in troca,

fazia por puro prazer!

 

Um dia, quando tava ajudano,

eu vi o Tião chegano,

Eta cabocro danado!

 

Arto, forte, moreno,

fala forti, inguar trovão!

Tava vortano du rio,

trazeno um enorme pexão,

 

Qui eu merma temperei,

pra modi nóis cumê

cum tuda sastifação!

 

Num é di vê, Santinha

Qui o Tião, gostô tantu,

qui passô  a mi obiservá!

  I naqueli mermo dia, mi disse:

-Ocê quer mi namorá?

 

Óia,  num deu pra agüentá 

O zóio deli ne mim!

Briava mais qui o luá,

I na hora ieu disse: sim !

I bejei aquela boca

alucinada i loca!

Di amor, di paxão di . . .

Di tudo Santinha!

 

Poco tempu adespois,

Tião, veio mi dizê:

Nóis vamu tê qui casá!

Num posso mais aguentá

ficá anssim pertu di ocê!

 

Marcamu o casamentu,

pro dia deiz di Dezembru.

mai, era tanta a percisão,

Que num deu pá isperá!

 

Marquei di cum eli, incontrá,

di noite, no caramanchão;

Cumbinamo di, num fala nada,

só dexá acuntecê. . .

No iscuro ninguém ia vê,

e nóis ia mermo casá. . .

 

Di noite, num aguentei,

i contei pra minha amiga,

sem sabê qui a mardita,

era loca, pelo meu Tião!

 

Ela mi serviu um chá,

Que era pra ieu mi acarmá

di tão nervosa que ieu tava . .

mai. . . ela ponhô sonífero, ieu

Drumi inté o sór raiár

i ela foi no meu lugar!

 

Adespois, a tristi  notícia,

a barriga dela cresceu!

E o Tião, qui era meu,

hoje é o pai do fio dela. . .

 

Por isso, tão se casano,

i o meu coração tá sangrano

di dor, di amor di ciúmi

Tamem di arrependimentu!

 

Num fosse  a márintenção

Daqueli mardito incontro,

Hoji, seria o dia, mais filiz da minha vida!

 

Santinha quirida, perdoa ieu?

Pur favor, cure a firida

qui si abriu drento di mim. . .

Lembra di tudo di bão

qui já fiz na minha vida.

 

Num é qui eu teja cobrano,

mai. . . é quieu to percizano

Um otro Tião, incontrá,

I podê vortá sê filiz

Aqui nessi nosso arraiár

 

 

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